Senão fosses tu, eu nunca teria sido capaz de ultrapassar esta doença. Foste, sem dúvida alguma, a minha maior forca na luta contra o cancro.
Mas sei que passaste, igualmente, por tempos muito difíceis…
Quando tudo estava a ir, aparentemente, pelo melhor caminho para a nossa vida o cancro apareceu. Ambos tínhamos trabalho e estávamos já à procura de uma casa para nos mudar. No entanto esse sonho foi adiado com a chegada da doença.
Foi muito difícil para ela ultrapassar essa fase mas pior ainda foi para ela aceitar o porque de tudo estar a acontecer, à pessoa que ela mais amava no mundo?
Por muitas vezes choramos juntos por causa do cancro. Porem também muitas vezes discuti-mos por causa do mesmo. A nossa primeira discussão começou quando eu decidi começar a escrever o diario.
Ela ficou extremamente chateada por que se começou a sentir como um à parte na minha luta. Eu estava a usar um pedaço de papel para exprimir os meus sentimentos em vezes de os desabafar com ela.
Eu apenas pensei que seria menos doloroso para ela se eu não lhe contasse o que sentia.
Mas essa fase foi ultrapassada e o pior para ela ainda estava para vir.
Cada vez que ia ao médico era uma dor imensa para ela, pois ela infelizmente nunca pode me acompanhar e era sem dúvida o que ela mais queria: Puder saber o que estava a passar comigo em primeira-mão e não ficar na angústia de saber as novidades só depois da minha chegada a casa. Ficando no trabalho imaginando todos os cenários possíveis de diagnóstico.
Muitas vezes lhe telefonei para o trabalho do hospital enquanto estava em tratamento e em todas essas vezes ela me contava que já tinha chorado por não me ter. Para piorar a situação os dois trabalhamos no mesmo sítio apenas separados por alguns metros de distância e estávamos habituados a olharmos e ver quer um quer outro no seu local de trabalho. Mesmo não podendo falar enquanto trabalhávamos sabíamos quem amávamos estava bem. Mas agora tudo tinha mudado, ela olhava e eu lá não estava e o sentimento de solidão aumentava… Sentia um aperto enorme no coração – Disse-me muitas vezes.
Mas estas dores eram apenas devido ao amor que ela sentia e sente por mim, o pior estava para vir.
Com a quimioterapia foi me dito que poderia ficar infértil permanentemente e que se não ficasse permanentemente nos próximos 5 anos não deveríamos ser capazes de ter filhos. Pois com o tratamento o esperma é afectado.
Foi o maior choque que ela teve durante a minha luta contra o cancro. No dia em que lhe contei o que iria acontecer ela chorou a tarde toda dizendo que queria ter um bebe pequenino do qual eu fosse o pai…
Não consigo por palavras algumas explicar o desespero que ela sentiu, pois nunca irei saber o que é para uma mulher tornar-se mãe um dia… Infelizmente o que parece garantido para a maior parte das mulheres hoje em dia, para a minha namorada ficou um pouco mais longe.
Mesmo depois de ter feito a doação de esperma a sua dor continuou. Ela não queria por meio algum ter um filho que não fosse feito da mesma maneira que eu e ela fomos… Costumava dizer: “Se não for feito da maneira normal então não quero”.
Na minha opinião esta resposta era apenas uma tentativa de tentar mudar ainda o que parecia inevitável um método de negação por parte dela. Talvez inconscientemente pensava que se recusa-se a utilizar um método de fertilização artificial teríamos se não outra hipótese de o conceber da maneira normal.
Foi muito difícil para ela encarar esta fase mas depois de muitas conversas em conjunto a situação foi melhorando.
É certamente um choque enorme para uma jovem de 21 anos receber a notícia de que o seu parceiro irá ficar infértil por um certo período de tempo e que pode ser ainda pior e ficar permanentemente.
No entanto apesar de todas as adversidades por que passou, desde a hora em que “saímos de casa da minha mãe” ela foi a melhor parceira que eu alguma vez poderia ter… Apesar da sua dor de não me ter no trabalho e estar longe do seu amor, todos os dias se levantava para ir trabalhar, incluindo sábados e por vezes domingos.
Tratou-me sempre com a maior das delicadezas, fazendo sem dúvida com que a minha luta contra o cancro, desde o dia que passamos a viver juntos, isto é sem mais interferências, fosse totalmente do carácter médico, não me tendo de preocupar minimamente com qualquer outro problema.
Mesmo quando estava sobre os efeitos secundários das drogas utilizadas na quimioterapia e por essa mesma razão um pouco mais insuportável que o habitual, ela sempre me apoiou e tentou compreender.
Não fui eu sozinho que tive de lutar contra o cancro. A minha namorada mesmo não tendo a doença, teve de comigo passar por todas as fases do tratamento. Tornando pior a situação para ela, era a vida de quem ela mais amava que estava em jogo.
Foi extremamente corajosa em enfrentar tudo da maneira que o fez por mim nunca baixou os braços e reconheço hoje que foi pelo menos meio caminho andado para a cura do cancro.
Volto a repetir: “ Sem ela nunca tinha conseguido vencer esta luta!”
O cancro, pelo tipo de doença que é, torna-se extremamente difícil de combater quer por parte do paciente quer por aqueles que o amam e lhe querem bem. Mas sem a ajuda destes é sem dúvida uma batalha contra as Trevas.
A todos aqueles que tenham um familiar, amigo ou conhecido com cancro, gostaria de pedir que esquecessem, algum e qualquer confronto que tenham com essa pessoa e pelo menos lhe facilitem a sua luta contra o cancro, com todo o apoio que lhe conseguirem dar.
A luta contra este flagelo se não for encarada a 100% torna-se muito mais difícil de vencer.
Uma simples frase de apoio e carinho pode mudar a disposição de uma pessoa.
Todo o apoio por parte de outros pode salvar uma vida…
