Dois dias depois do choque tive notícias da parte dos médicos. Foram extremamente rápidos em decidir o que fazer e em providenciar o tratamento.
Quinta-Feira. Telefonaram para casa da minha mãe procurando por mim do Hospital, não estava e por isso a minha disse para que eles deixassem a mensagem que ela iria se certificar que ela seria entregue, mas contrariamente ao que estamos habituados em Portugal ela obteve uma resposta negativa.
- É politica da NHS não divulgar nenhum diagnostico se não ao paciente. – Foi esta a resposta que ela obteve.
Assim no dia seguinte o médico telefonou.
Fiquei espantado com as notícias. Era para me informar que a minha cirurgia para remover o tumor seria na Segunda-Feira seguinte e para rever todos os procedimentos da cirurgia: A remoção de todo o testículo esquerdo por um corte feito no abdómen, e a colocação de uma prótese testicular durante a mesma cirurgia.
Confirmada a operação e todos os seus procedimentos no dia seguinte fui avisar o meu empregador.
Deve ter sido um espanto também para ele mas ainda mais foi para mim:
Dirigi-me ao seu escritório e contei-lhe que iria fazer uma cirurgia para a remoção de um tumor no testículo esquerdo, nunca pensei que iria alguma vez ter ajudas por parte dele ou sequer direito a algum tipo de benefício por parte do Estado. Mas foi totalmente o contrário. Logo de seguida ele enviou um Fax para o seguro a explicar a minha situação e disse-me logo de seguida o que eu iria ficar a receber e as ajudas que iria de futuro ter por parte deles.
Foram formidáveis até hoje comigo.
Fiquei maravilhado com a situação era uma pequena vitória que tinha conseguido, pelo menos o meu ordenado eu iria continuar a receber, mesmo que numa inferior quantidade, no fim da semana estava certo e era nesta altura menos uma preocupação na minha cabeça.
Não tive muitos dias para pensar na cirurgia, ou sequer tempo para ficar apreensivo a cerca da mesma, mas no tempo em que pensei, tinha medo de depois da anestesia me ser administrada nunca mais voltar a acordar.
Infelizmente dias antes de vir de Portugal vi na televisão um caso de um paciente que foi apenas para uma cirurgia de “rotina” e por causa da anestesia acabou por falecer.
Só me conseguia lembrar de acontecimentos desse género e estava com medo e muita preocupação em relação à cirurgia.
Fui até ao Pub não para falar da minha situação médica mas para resolver outro assunto. Devido ao que se passava em casa da minha mãe eu e a minha namorada estávamos a tentar encontrar sítio onde viver e o Alan tinha nos arranjado a solução mas infelizmente nós não conseguiríamos nos mudar devido a minha doença. Depois de saber o que se passava ele e a sua mulher foram muito amáveis a ofereceram-se para ajudar-me no que fosse preciso e que iriam me tentar ir ver ao hospital mas que mesmo que não conseguissem me ir ver, estariam sempre comigo em pensamento, a torcer para que tudo tivesse corrido bem.
Foi algo que me deu muita alegria e força para enfrentar o que estava para vir estava ainda com algum medo mas estava agora também um pouco mais confiante.
Mas logo durante a noite alguma da minha confiança se esvaneceu…
Não me recordo que horas seriam quando o marido da minha mãe chegou a casa, já embriagado começou por discutir com a minha mãe e em seguida começou a bater-lhe. Eu já estava farto daquela vida. Levantei-me da cama e fui direito ao telemóvel para chamar a polícia. Alguns minutos depois eles chegaram, apesar de ele até já ser conhecido por alguns dos agentes que vieram nessa noite nada fizeram, a minha mãe apesar da violência nada fez. Não quis, apresentar queixa nem sequer quis que ele se fosse embora. Apesar do meu esforço para acabar com o sofrimento, ela nada fez e sem respeito quer por mim quer pelo meu irmão mais novo as coisas continuaram infelizmente iguais.
Na manhã seguinte foi como se nada se tivesse passado. Arranjei a minha mala para levar para o hospital e em seguida telefonei para a enfermaria para informar da minha ida e igualmente para saber se teriam já a cama disponível. Tudo estava bem com o hospital. Eu poderia dar entrada quando desejasse e minutos depois a minha amiga Anita apareceu para me dar boleia até ao Hospital, a mim à minha namorada, ao meu irmão e também a minha mãe.
Todos foram comigo até ao hospital mas infelizmente apenas a minha mãe e o meu mano pequenino ficaram comigo. A Anita teve de ir trabalhar, assim como o amor da minha vida.
Dirigi-me para a Urologia onde iria ficar internado, mas para espanto meu não me dirigiram para uma cama ou um quarto, fui antes como que para uma sala de exames. Fiquei a saber que iria ter a minha tão “desejada” intervenção cirúrgica logo de seguida.
Depois de me tirarem o peso e medirem a altura, tive apenas um breve conversa com o anestesista que me acalmou para eu não ter preocupação nenhum pois poderia ter a certeza que iria dormir…
Não era o acordar a meio da operação que me preocupava, era mesmo a ideia de não voltar a acorda da mesma, mas valeu pelo esforço que teve.
Seguidamente veio a Medica esteve a analisar o testículo que iria ser removido e desenhou uma seta na perna esquerda a apontar para o mesmo. Vesti o fato de “gala” e fui de maca até ao teatro de operações.
Não deixaram a minha mãe seguir comigo ela tinha de esperar até ao fim da cirurgia. Estava um frio de morte naquela parte do hospital e senti-me tão mal, tinha o meu estômago às voltas por causa da apreensividade e para que essa mesma se esvanecesse tentei por conversa com o anestesista e com o resto do Staff médico.
É óbvio que a conversa acabou em futebol e como sou apoiante do Chelsea e ele do Arsenal logo a conversa se tornou mais interessante.
Depois de me colocarem o cateter as últimas palavras que ouvi do anestesista foram:
- Vou só te dar este cocktail…
Acordei 45 minutos depois na sala de recobro.
Estava espantado com a rapidez de tudo o que se tinha passado e não sentia dor alguma.
- Já está? – Perguntei à enfermeira.
- Podes ver por ti mesmo – Respondeu.
Aprecei-me em levantar os lençóis que me cobriam e logo ironicamente sorri e disse:
- Hááá ok, já vi que o testículo não está cá.
Entretanto voltei a adormecer…
Quando acordei já estava na enfermaria, de volta ao 4 piso, à urologia.
Tinha mais 5 colegas de quarto, todos eles já de avançada idade….
A princípio senti-me como um estranho naquele quarto mas fui me apresentando e fui me introduzindo no cenário.
Lembro-me que um dos pacientes internados tinha a sua mulher também doente com cancro e infelizmente ela tinha um tumor cerebral e não poderia ser retirado… Já estava cega e pouco falava…
Fiquei triste e revoltado, mas ao mesmo tempo deu-me ainda mais forca para lutar contra o que tinha, pois ainda hoje me lembro do sorriso que fez depois de falar nela e sei que ambos nunca iriam desistir da vida mesmo nas condições onde se encontravam.
As conversas continuaram como normal e fiquei a saber vários interessantes assuntos sobre cada um deles.
Naquele dia houve uma tremenda tempestade de relâmpagos. Por volta das 16 horas o céu ficou totalmente escuro e a tempestade começou. Nunca vi nada assim foi algo tanto de espectacular como de aterrador…
Por fim a noite chegou, por volta das 22 horas as luzes apagaram-se e cansado que estava o meu corpo da cirurgia adormeci…
Nessa noite tive um sonho aterrador lembro-me como se fosse hoje: Lembro me de ver um fundo preto e ver o demónio a ler um livro sobre o cancro… Acordei assustado mas calmo o tumor já tinha sido retirado apesar de o sonho reflectir os meus medos mais profundos consegui manter a calma e voltar a adormecer.
Acordei por volta das 6 da manha e estava o mais lindo dos dias, o céu azul e um sol do mais brilhante.
Não poderia ter tido melhor começo de dia depois de uma noite atribulada. Pois o paciente ao meu lado sofria de Parkinson e já não estava completamente consciente do que fazia.
Pouco depois a medica que me tinha visto na manha anterior veio:
- A cirurgia correu sem qualquer problema, o cirurgião chefe depois de ter visto a situação decidiu retirar todo o testículo. Em seguida pensamos que ira ter que fazer quimioterapia ou radioterapia, iremos tentar que o tratamento seja mais leve possível devido a sua idade.
Em breve irá ser contactado com os seguintes exames a fazer.
Pediu que me despisse e apalpou o abdómen e a zona do corte cirúrgico.
Tudo parecia bem.
- Terá alta hoje!
Fiquei espantado com a notícia. Um dia depois da cirurgia já poderia ir para casa?
Não sentia dores algumas mas nunca pensei que a estadia fosse assim tão curta.
De seguida foi me explicado tudo o que teria de fazer no tempo em que estaria à espera dos resultados da biopsia.
Teria de fazer todas as semanas exames ao sangue e tinha já marcado um exame radiológico para ver até onde no meu corpo o cancro se tinha espalhado.
Tinha medo ainda de me levantar, mas quando o fiz não senti dores algumas.
Telefonei para a minha mãe para que fosse até ao meu emprego pedir se alguém me poderia ir buscar ao Hospital.
Estava cheio de contente por ter tido alta tão rapidamente e igualmente espantados com a notícia ficaram os meus colegas de quarto.
Passados poucos minutos a minha mãe chegou e fui para casa. Estava feliz porque um passo enorme tinha sido dado para a cura do cancro.
Mas a maior luta estava ainda para vir…
Hoje quando me lembro do quanto assustado estava, sorrio… Fui mesmo um medricas, mas que posso fazer nunca tinha passado por nada parecido e tinha medo… Ainda penso no significado que o sonho possa ter.
Não tenham medo das cirurgias que tenham que fazer, são parte de um processo de cura inevitável de acontecer, no fim sinto-me muito melhor por saber que o tumor foi removido.
A perca de um dos testículos para mim foi fácil de encarar. Esteticamente não me faz muita diferença nem parece nada de estranho ou anormal. A virilidade de um Homem em nada fica afectada e não afecta em nada a fertilidade. A todos aqueles que tenham de passar pelo mesmo não se preocupem com o aspecto estético do vosso corpo. Por favor concentrem-se apenas em curar o cancro. No fim arranjei como que um ditado em Inglês: One is better than none!
Intruducao Do Livro
Cancro?
Nunca pensei que isto me pode-se acontecer!
Sempre pensei que o Cancro só atingia os outros!
Quanto mais tempo tenho de vida…?
Agora pára para pensar um pouco.
Levanta a cabeça e pensa em tudo o que mais amas…
Não queres deixar nada disso para trás pois não?
Então Luta, Luta com todas as tuas forças, tem Fé, Acredita e Vence!
Também tenho a mesma doença que tu, e Nunca vou Desistir
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
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