Por Vezes a realidade é mais estranha que a ficcao.

Um Cancro uma historia

Novidades!

Capitulo VIII - Na pele de outra pessoa - 28/03/2010

Intruducao Do Livro

Cancro?

Agora que vou fazer…?

Nunca pensei que isto me pode-se acontecer!

Sempre pensei que o Cancro só atingia os outros!

Será que irei morrer?

Quanto mais tempo tenho de vida…?

Já desabafas-te?

Agora pára para pensar um pouco.

Levanta a cabeça e pensa em tudo o que mais amas…

Não queres deixar nada disso para trás pois não?

Então Luta, Luta com todas as tuas forças, tem Fé, Acredita e Vence!

Também tenho a mesma doença que tu, e Nunca vou Desistir

Nunca irei Desistir!

NUNCA!

Esta é a minha história…

A minha Luta contra este sufrágio universal…

O meu dia-a-dia…

domingo, 31 de janeiro de 2010

Capitulo VI - O Milagre

É agradecendo a Deus Nosso Senhor que devo começar este capítulo. Pois sem a sua forca e ajuda não teria superado esta fase da minha doença.

Assim que chegamos a casa da Anita ela pediu que fossemos para o seu quarto, enquanto ela explicou a situação a sua família. Eu tentei animar a minha namorada e trazer um pouco de alegria aquele momento. Lembrei-me dos meus avós e telefonei-lhes para tentar encontrar algum conforto nas suas palavras. Assim que liguei perguntei logo se eles sabiam do que se estava a passar, mas surpreendentemente disseram me que não sabiam de nada, a minha mãe ainda não lhes tinha dito nada. Contei-lhes eu então tudo o que se passara e logo disseram para que eu volta-se para Portugal e tentasse fazer a minha vida lá. Logo recusei, já tanto tinha alcançado aqui em Inglaterra, não senti que fosse prudente regressar.
No entanto as suas palavras foram de grande reconforto para mim e deram-me a forca necessária para continuar. Despedi-me de ambos dizendo:
- Não se preocupem. Eu estou bem.
Mas na minha consciência sabia que não era bem assim. Neste momento sentia-me como um náufrago, numa terra desconhecida.
Ficámos pelo quarto da Anita pelo menos uma hora a conversar e a pensar no que se iria fazer a seguir.
Minutos depois a Anita tinha arranjado a soluçao, ela queria que fossemos todos passar a noite juntos a casa de uns amigos dela e depois de manha eu mais calmo iria tentar arranjar encontrar uma soluçao. A princípio não quis aceitar, orgulhoso como sou, mas tive de engolir esse mesmo orgulho, não tanto por mim mas tinha a minha namorada a meu lado também e não queria que ela tivesse que passar uma noite sequer na rua.
Em seguida a mãe da Anita ofereceu-nos comida a ambos. Jantamos e saímos. Apenas sabia que iria em direcção a Gloucester. Não conhecia as pessoas com quem iria ficar, nem nunca sequer as tinha visto. Pelo caminho paramos numa florista e num clube de vídeo, era o menos que podíamos fazer, se não os conhecíamos pelo menos teríamos de lhes dar algo em troca da sua hospitalidade.
Durante a viagem em direcção a Gloucester nunca me entristeci, antes pelo contrário, estávamos até muito alegres.
Por fim chegamos ao nosso destino. Era já noite cerrada…
Batemos á porta e sem nenhuma pergunta fomos recebidos de braços abertos. Ofereceram-nos jantar, coisa que recusamos, e sentamo-nos na sala a ver o filme, que tínhamos alugado.
Aí no silêncio que se fez tive tempo para pensar… não tinha para onde ir, não tinha posses e sinceramente não tinha muitos amigos… mas tinha algo que me dava esperança para continuar… bastava me olhar em frente e via o meu amor, estava completamente adormecida com o cansaco, mas a sua cara boneca deu-me esperança para continuar a sorrir e manter a minha cabeça sempre levantada.
- Não vou deixar que nada nos separe e enfrentarei todos os desafios em teu nome amor.
Passados alguns minutos fomos todos para os quartos. A minha namorada ficou a dormir com a Anita e eu com um dos donos da casa.
Ao deitar-me não pensei no futuro apenas no presente, hoje tinha uma cama confortável e tinha de a aproveitar o melhor que podia para descansar e por todas as emoções daquele dia para trás das costas.
A minha melhor opção era ir ao Concil explicar o que se tinha sucedido e ver em que me poderiam ajudar e depois tinha exames médicos as 11 da manha. Assim iria ser o meu dia de amanhã.
Adormeci e apenas rezei para que um milagre acontece-se e talvez no Concil me ajudassem.

Naquela noite não pensei no cancro, nem nos possíveis resultados dos exames que tinha feito nessa mesma manha. Mas na minha opinião este dia foi sem dúvida o mais importante na minha luta contra o cancro.
Foram e são ainda hoje dias como este da minha vida que me fazem apreciar todos os outros que são apenas normais.


Quinta-feira 28 de Agosto 2004

Acordei, eram por volta das 7 da manha, ainda ninguém se tinha levantado, vesti-me, desci as escadas e estavam a minha namorada e a Anita a arrumarem a cama onde tinham dormido.
Logo após a higiene matinal, fomos todos tomar o pequeno-almoço.
Cereais com leite e torradas e depois de comermos a minha aventura começou. Saímos de Gloucester em direcção a Stroud e na minha cabeça apenas tinha a certeza que não iria voltar para a casa da minha mãe, acontecesse o que acontecesse.
Deixei a minha namorda no trabalho.
Dei-lhe um beijo apaixonado e disse:
- Não te preocupes amor, quando saíres o menino já arranjou sítio para nós ficármos.
- Não preocupa mor… – Disse carinhosamente.
Em seguida a Anita deixou-me à porta do Concil eram 8 da manha, ou pouco faltava para as 8.
Felizmente estava um dia de sol. Infelizmente o Concil só abria as 9. Não foi problema encontrei um local perfeito junto ao canal onde podia pensar no que dizer, na atitude a tomar e especialmente na promessa que tinha feito ao meu amor.
Alguns minutos passado as 9 decidi por me a caminho para o Concil. Assim que entrei expliquei a minha situação à recepcionista, esta mandou chamar outra pessoa e pediu que me sentasse aguardando pela mesma.
Finalmente chegou, fomos para outra sala e pediu-me para que lhe explicasse a situação.
Expliquei tudo “tintim por tintim”, a discussão com a minha mãe, os problemas desde a minha chegada, a minha doença e agora a minha situação. Na rua sem nada, apenas roupas, amor e cancro.
No fim penso que não acreditou numa palavra do que eu disse nem na doença. Pediu que lhe apresentasse uma carta médica com a minha condição e só depois poderia chegar a decisão de me ajudar ou não. Deu-me até às 14 desse dia para a conseguir arranjar e regressar com a mesma. Despedi-me e fui directamente ao posto médico, pelo caminho apenas a incerteza do que se iria passar em seguida.
Chegado ao Rowcroft Medical Centre expliquei a minha situação à recepcionista, a qual foi extremamente útil em me ajudar, infelizmente o médico que estava a seguir o meu problema, não estava disponível neste dia. Penso que nesta altura o desespero nos meus olhos foi tal que a recepcionista conseguiu ver e falou com outro medico para que me pudesse ajudar. Graças a Deus a consulta ficou marcada para 10 minutos depois das 11 da manha.
Apenas um problema, faltava uma hora ate à consulta e tinha começado a chover… afinal estava em Inglaterra e aqui o sol nunca vem só…
Onde iria eu passar este tempo?
Sai do centro médico e comecei a andar pelas ruas de Stroud sem rumo, apenas tentando passar o tempo, foi então que passei pela igreja católica de Stroud e pensei: Aqui pelo menos não irao pedir que me vá embora e sempre posso ter algum tempo em paz, para pensar…
Entrei e estava apenas uma senhora dentro da igreja, sentada a ler e responsável para que a porta ficasse aberta para todos aqueles que quisessem um pouco de paz.
Depois de entrar benzi-me… e sem pensar sentei-me a seu lado…
Foi como se de uma peca de teatro se tratasse. Apresentamo-nos e a senhora perguntou como eu estava e naquela situação não lhe consegui mentir, contei-lhe tudo o que se tinha passado enquanto me enchia de lágrimas. Após me escutar a senhora teve a mais bela atitude que já alguma vez alguém teve para comigo. Ofereceu-me que ficasse em sua casa mais a minha namorada. Orgulhoso como sou recusei e expliquei que não poderia aceitar… Era demais para eu aceitar. Mais uma vez insistiu e depois de me ter explicado onde era a sua casa ofereceu-me as suas chaves…
De novo recusei. Por fim deu-me a sua morada e disse-me para pensar melhor…
Eram já perto das 11 horas e eu tinha de me apressar para não chegar atrasado ao posto medico. Despedi-me, nunca pensando que a iria voltar a ver…
Ainda meio aparvalhado com o que tinha acabado de acontecer, consegui chegar ao posto médico sem nenhum atraso.
Conversei com o médico sobre a minha situação e tudo o que me tinha acontecido ate então e sem demoras ele decidiu me ajudar, enquanto escrevia a carta para comprovar a minha situação médica, perguntou-me o nome da minha mãe e se ela era também paciente naquele mesmo centro médico. Respondi e ele disse que iria tomar uma atitude em relação ao seu estado mental. Despedi-me com o maior dos Obrigados e saí. A recepcionista perguntou como tinha corrido e se o médico tinha sido capaz de me ajudar respondi que sim e desejou-me a melhor das sortes para a minha vida.
11:30… Ainda faltava um pouco para as 14 que iria eu fazer até lá? Por que não ir até à morada que a senhora me tinha dado?
Não sabia onde era a sua morada mas ela disse me algo que me alegrou naquele momento.
- Reconhecerás logo a casa, tem uma carrinha vermelha e velha na entrada. O meu filho conduziu-a até lá 4 anos atrás e ate hoje nunca de a lá tirou…
Não deveria ser difícil de encontrar a sua residência com esta descrição e pus me à procura por Stroud.
A princípio fui para os lados do parque nas logo me apercebi que seria melhor perguntar a alguém se reconhecia o nome da rua.
Logo após o breve questionário a um dos trabalhadores do parque fui seguindo as suas indicações e finalmente cheguei a Folly Lane, agora era só arranjar maneira de encontrar uma carrinha vermelha com um aspecto muito antigo.
Finalmente cheguei, numero 34 Folly Lane, um anjo morava aqui, ou seria só um sonho? Em breve iria descobrir. Bati à porta e a mesma senhora veio a porta, convidou-me para entrar e fiquei espantado com o que me disse logo de seguida.
- Já preparei o vosso quarto e a vossa cama, não é nada de especial, mas ao menos vai vos servir para se sentirem um pouco mais em casa.
Mas como poderia ela saber que eu iria vir? Eu poderia estar a mentir e querer apenas me aproveitar dela…
Expliquei-lhe estas minhas questões e a sua resposta foi uma frase que nunca irei esquecer: - “Life is stranger than fiction” “ e vi logo nos teus belos olhos que eras uma boa pessoa e eu sei que és alguém muito especial.”
Fiquei sem palavras, e apenas respondi que não era eu que era especial era a senhora que tinha um enorme coração.
Sentamo-nos ambos na sala e perguntou se eu queria algo para comer, respondi que não mas aceitei o café, precisava de algo para me manter acordado, pois já pouco faltava para ir ate ao concil para esclarecer as coisas e ver se me poderiam ajudar ou não.
Falámos mais um pouco para completar a apresentação e sai em direcção ao Concil. Algo muito pequeno no tamanho da vida aconteceu nesse momento, a senhora pediu-me que deixa-se o meu casaco em casa pois estava calor e eu não iria necessitar dele, foi ai que eu percebi que era mesmo o desejo da senhora que eu ficasse…
São estas pequenas coisas que comecei a apreciar desde este dia.
Despedi-me e sai. No caminho a mais surreal das coisas aconteceu, a minha mãe estava na paragem do autocarro com o meu irmão e assim que me viu começou a gritar coisas que sinceramente não tomei sequer atenção, apenas me dirigi ao meu irmão dei-lhe dois beijos e perguntei como ele estava.... Aprecei-me a despedir dele, pois a gritaria era já insuportável e mesmo ninguém percebendo o que ela dizia, já era de mais.
Quando cheguei ao Concil não demorou dois minutos para me chamarem, fiquei mais que furioso com o que me disseram: - “Telefonámos a sua mãe para esclarecer os factos e ela disse que nunca vos pusera fora de casa e que estava muito preocupada com a vossa vida de agora em diante…”
Fiquei num estado inimaginável, como é que ela pode dizer algo assim, como? Porque é que ela mentiu e para que? Ela acabou de gritar comigo na rua dizendo coisas horríveis a respeito de mim e da minha namorada e foi capaz de dizer uma coisa destas ao Concil... Não tinha como responder, fez-me passar por mentiroso e fez-me passar por alguém que apenas se queria aproveitar da boa vontade e ajuda de outros. Esse momento foi dos piores que tive na minha vida, odeio quando me desmentem, odeio pessoas que não são honestas… Mas eu sabia que ela me havia de pedir desculpa… No fim iria vencer…
Sai do Concil num misto de emoções, estava triste, furioso com o que tinha acontecido mas ao mesmo tempo estava estupefacto com o que me tinha acontecido anteriormente. Decidi ir ao encontro da minha namorada antes de ela sair do trabalho e fui pelo canal andando umas 4 milhas enquanto pensava sobre tudo o que se tinha passado neste dia. Decidi passar pela AlphaMace era no caminho e tinha ainda muito tempo ate ela sair, poderia pelo menos beber um café ou assim.
Entrei no escritório e estavam lá todos com quem antes tinha trabalhado naquele momento. Sentaram-se à minha volta para ouvir a minha história. No final também eles estavam boquiabertos. É um pouco demais para ser coincidência o que me tinha acontecido apenas umas horas antes. Mas era verdade.
Quando dei pelas horas já tinha a minha namorada a telefonar-me preocupada com o que iríamos fazer a seguir. Fui ter com ela e contei-lhe a historia. Estranho dela, nem disse nada, não perguntou como aconteceu ou o porque, apenas aceitou que a senhora nos tenha oferecido a sua casa de boa vontade, não ficou de maneira alguma espantada com a situação. Na minha opinião o seu contentamento foi tão grande que seria como que um afrontamento questionar tal acontecimento. Tínhamos agora apenas que esperar que a Anita viesse do trabalho para nos poder ajudar a levar as nossas roupas e bens pessoais para a nossa nova morada, apenas mais uma surpresa estava ainda para vir:
Enquanto esperávamos que a Anita regressa-se do seu trabalho decidimos ir ate casa dela. Entretanto a caminha de sua casa encontramos a minha mãe. Estava cheia de contentamento dizendo que eu nunca iria ter nada e perguntou se eu já sabia as novidades do Concil. Eu nada disse, nem uma palavra lhe dirigi e ela continuou: - Eles não te vão ajudar em nada eles já me telefonaram e eu já lhes disse tudo. Segui o meu caminho e nada lhe disse apenas pensei… Foi um dia difícil e se Deus quiser estará prestes a acabar da melhor maneira… não preciso dela e apenas tenho pena do seu modo de vida e da maneira como ela e o seu parceiro educam o meu irmão.
Continuei para casa da Anita. Ela ainda não tinha voltado do trabalho mas tinha falado com ela pelo telemóvel e sabia que ela estava ansiosa para ouvir as novidades. Após lhe contar tudo o que se tinha passado naquele dia ela imediatamente se mudou de roupas e nos levou ate a nossa morada com os nossos bens. Durante a curta viagem apenas falamos sobre o dia mas eu confessei-lhe que ainda nem eu sabia se era mesmo verdade, estava com medo que a senhora tivesse mudado de ideias e que agora não tivéssemos onde ficar mas enganei-me como seria de esperar fui acolhido como um filho que a casa retorna. Tive o melhor dos acolhimentos imagináveis e a senhora explicou-nos as regras. Esta era a nossa nova casa, nós não nos teríamos de preocupar com ela, apenas tínhamos de viver a nossa vida como queríamos. Não tínhamos de pagar nada se não a nossa comida e viver a nossa vida em paz…
Assim sendo e como era quinta-feira o dia em que nós recebíamos fomos em seguida as compras para a nossa nova casa e tínhamos de comprar tudo mas foi formidável, foi um sentimento único. Penso que foi algo único, a primeira vez que nós fomos as compras os dois para a nossa casa, para o começo da nossa família e depois de um dia como o que tínhamos tido foi um sentimento extraordinário. Para além disso tínhamos a certeza que quando chegassemos a casa estava alguém pronto para nos dar amor e paz como sempre desejamos e como ha uns meses para cá não tínhamos tido.
Deste dia em diante sempre que me perguntaram onde vivia eu sempre respondi: No paraíso, porque a dona da casa é senão um anjo.
Seguidamente de chegarmos das compras e arrumar tudo comemos algo rápido e fomos para a nossa nova cama e quando chegamos ao quarto verificamos que era aliás duas camas de solteiro juntas mas que importava isso? Deitamo-nos e a Inês ficou um pouco acima de mim numa das camas e começamos a brincar dizendo que éramos vizinhos e ambos vivíamos em andares diferentes.
Adormecemos de mãos dadas…
Amanhã era mais um dia, mais uma batalha…

Choro e estou neste momento que escrevo a chorar. Foi o mais formidável dos dias da minha vida, tudo mudou, num dia tudo mudou. Não tínhamos nada mas tínhamos tudo… Amor um pelo outro… e um anjo a cuidar de nós. A cama poderia até ser desnivelada mas não importou nada, apenas saber que alguém tinha tido o trabalho de a preparar para nós, foi um sentimento formidável, todo o amor que aquela pessoa tinha posto em nos preparar a cama conseguia-se sentir enquanto estávamos deitados nela.
A vida pode ser a mais belas das coisas mesmo quando se luta contra um cancro, apenas temos de ter as pessoas certas ao nosso lado e tudo muda.
Luta todos os dias e quem sabe no dia seguinte a tua vida pode mudar.

Um comentário:

Johnny disse...

Pode se dizer, que apesar de todas as probabilidades e problemas com que foste lutando, tinhas mesmo um anjo da guarda a olhar por voces. Ainda bem que tudo correu pelo melhor. ;) - Johnny